1ª publicação em marketing e estratégia de clientes
Quando se afirma que a orientação do cliente pode salvar uma empresa do fracasso, o caso da cadeia britânica de supermercados e lojas Tesco serve de exemplo perfeito para sustentar esta afirmação. O mau serviço que a empresa oferece e a escassa popularidade de que goza entre o público levaram a que, nos anos 80, a expressão "doing a Tesco" se associasse ao fracasso.
Desde que, em 1947, abrira o primeiro comércio britãnico baseado no conceito americano da loja "self-service", a empresa tinha-se centrado em optimizar a sua relação com os sócios e fornecedores, melhorando os seus processos logísticos a custo de deixar de lado o cliente. Com o passar do tempo, esta estratégia passou factura à organização, cuja imagem entre os consumidores era a de uma empresa de preços baixos, má qualidade e mau serviço ao cliente. No príncipio da década de 90, a empresa empreende um novo rumo do seu então director de Marketing e actual CEO, Terry Leahy. Leahy propos-se gerar uma mudança completa na cultura da Tesco para levantar a empresa.
A empresa apresentou três objectivos imediatos. O primeiro, lutar pela diferenciação da sua concorrência. Para isso, era imprescindível deixar de imitar a estratégia comercial do Sainsbury's, o seu principal rival. Em segundo lugar, havia que situar o cliente no centro de qualquer decisão a adoptar a partir desse momento. Por último, e em relação ao ponto anterior, concebera-se uma nova oferta comercial baseada nas preferências dos utilizadores.
Um passo fundamental para colocar em marcha este esquema era proporcionar meios aos clientes para expressar as suas opiniões sobre a empresa. O mero uso dos correio de sugestões começou a trazer as primeiras importantes pistas para melhorar os supermercados da Tesco.
A firma preocupou-se em conhecer mais sobre os seus clientes, indo mais além do que o havia sido feito antes por qualquer um dos seus concorrentes. Um dos instrumentos que melhor serviu para esta tarefa foi o cartão Clubcard. Introduzido em 1995, marcou um antes e um depois no terreno dos cartões de fidelização. A Tesco recolhia e analizava toda a informação proporcionada pelo cartão para construir os perfis dos seus clientes. Ao saber os seus hábitos de compra, quando e porquê se decidiam por uns produtos e não por outros, quais eram as suas marcas favoritas e com que frequência iam ao supermercado, podia oferecer, em tempo real, propostas e descontos personalizados. Desde então, existem mais de 24 milhões de clientes que utilizam o Clubcard, e as poupanças geradas superam com juros os 470 milhões de euros.
Esta política de foco no cliente reconciliou a empresa com a sua clientela, que recuperou a confiança perdida graças à informação proporcionada pelos clientes. A empresa optimizou a distribuição da sua rede comercial, e melhorou a gestão dos stocks e das linhas, através de uma melhor concepção das ofertas promocionais: ao adaptar-se aos gostos do cliente, puderam eliminar-se aqueles que não interessavam, sem que o consumidor detectasse menos oportunidades de compra.
A Tesco conta, na actualidade, com um dos sistemas de gestão por categorias mais complexos e completos do mundo. A empresa utiliza mais de 16.000 modelos de segmentação e as suas correspondentes baterías de algoritmos e alarmes para analisar os seus clientes, estabelecendo um avançado modelo de "segmentos de necessidade", com os quais organiza a sua estratégia de marketing e comunicação. Assim, dispõe de numerosas versões dos seus folhetos e revistas promocionais, que distribui num ou noutro segmento baseando-se nas suas distintas características. Assim, o Tesco é capaz de se antecipar aos desejos dos seus clientes e propor-lhes a oferta mais adequada às suas necessidades, poupando importantes custos.
Em pouco tempo, o Tesco conseguiu ser visto como um sinónimo de qualidade, mantendo, além disso, uma política de preços competitivos, que lhe permitiu encarar com êxito a receita no mercado anglo-saxão de outros potentes grupos internacionais dedicados à grande distribuição, como o Wal-Mart ou Carrefour.
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