1ª publicação em marketing e estratégia de clientes
Resumo:
A terceira edição do Marketing Strategy Forum (MSF), organizado pela DAEMON QUEST, acolheu as ideias mais inovadoras do Marketing. Apresentamos a síntese, em Dez Passos, das “Receitas de Êxito para um Novo Marketing de Clientes”, pela mão de alguns dos melhores especialistas dentro e fora de Espanha, presentes no MSF.
Nos passados dias 7 e 8 de Março, em Madrid e Barcelona respectivamente, mais de um milhar de Presidentes, Directores Gerais, Directores de Marketing e Directores Comerciais voltaram a fazer do Marketing Strategy Forum (MSF), organizado pela DAEMON QUEST e pela HSM, a convocatória líder em inovação em Marketing de Espanha. Da mão de especialistas nacionais e estrangeiros, surgiram extraordinárias ideias e tendências orientadas para transformar o velho marketing de produto num Novo Marketing de Clientes. Quisemos analisá-las e sintetisá-las em dez passos destinados a alcançar uma única meta: a concepção de Estratégias de Marketing vencedoras.
As empresas devem perguntar-se “que faço bem” e diferenciar-se claramente por um grupo selectivo de elementos. O termo “valor acrescentado” está superado. Todos dizem que o têm. A vinculação com o cliente deve basear-se mais na oportunidade de lhe oferecer “experiências” distintas que associe sempre a uma empresa. Richard Branson, o fundador da Virgin, é o símbolo máximo desta tendência. Não só vende bilhetes de avião, discos ou viagens à lua, como oferece aos seus clientes “experiências Virgin”.
Em Espanha, empresas como a Aviva Vida e Pensiones demonstraram que as coisas podem ser feitas de forma diferente e triunfar num mercado complexo. O terceiro grupo segurador de Espanha, diferencia-se pela sua sólida posição de liderança, um modelo comercial que aposta na permanência no canal e com a especialização como elemento diferenciador, pois a empresa é um operador exclusivamente centrado no ramo de vida. Para ser “diferente”, Aviva Vida e Pensiones empreendeu uma admirável viragem organizacional inteiramente orientada para o cliente e marcou como objectivo uma quadrupla aposta pelo valor: valor dos clientes, valor dos distribuidores, valor dos empregados e valor dos accionistas [iv].
Este termo, cunhado pelo professor da London Business School, Nirmalya Kumar, apoia-se sobre dois eixos: um Marketing que tome a iniciativa e não se limite a lançar “o que as fábricas produzem” e um Marketing totalmente focalizado no cliente. Ambos os eixos assentam num Marketing analítico, baseado no conhecimento do cliente, que substitua o enfoque no produto pelo seguinte modelo em etapas: segmentar, “targetizar”, posicionar-se, conceber o produto / serviço, promocioná-lo, localizá-lo no mercado e fixar o preço. As Estratégias de “Customer Driven Marketing” devem substituir as “4P” mediante três processos chave, derivados do Marketing Analítico: desenvolvimento de produto (desenho + estratégia + investigação), vendas (preços + produção + distribuição) e suporte ao cliente (análises + serviço + promoção). Empresas como a Wal-Mart são paradigmáticas na Estratégia de “Customer Driven Marketing”: combinando conhecimento e investigação de clientes (“Customer Research”) com técnicas analíticas, a empresa de distribuição mais potente do mundo conseguiu saber tudo sobre os seus utilizadores e manter com eles um diálogo não só formal, mas directamente orientado para elevar o volume de vendas.
“O império do ROI” deve ser completo com enfoques baseados igualmente na rentabilidade, mas centrada no cliente. Don Peppers define o ROC como uma métrica que permite calcular o nível no qual um cliente começa a gerar valor para uma empresa, mas também como uma filosofía empresarial, destinada a obter a confiança a longo prazo dos clientes reais e potenciais. Enquanto que o ROI responde à pergunta “Quanto dinheiro obtenho do capital com que conto?” O ROC responde à pregunta “Quanto dinheiro obtenho dos clientes com os quais conto?” [v]. Sob ambas as perguntas sobressai um conceito absolutamente chave: o valor do cliente durante toda sua relação potencial com a empresa, o “Life Time Value” (LTV).
As empresas entenderam, desde há algum tempo, a importância de ter claro qual é o valor de cada cliente e atribuir recursos em função desse valor. Mas limitar a “cadeia de valor” a um só elo – do cliente - não é suficiente. Não basta conhecer “a quem atender em função de quanto valha”, mas que proposta de valor fazemos a esse cliente que detectámos como valioso. Quando for claro qual é essa proposta de valor diferenciada e adaptada às suas necessidades, é imperativo saber, de igual modo, como vamos fazê-la chegar, ou seja, que valor vamos conseguir no serviço, na forma de atender o cliente: porque canais, com que mensagens, com que meios... Só a soma “valor do cliente + valor da proposta + valor do serviço” (Valued customer + Value proposition + Value Network), cunhada pelo professor Nirmalya Kumar, da London Business School, é capaz de garantir o êxito das Estratégias de Marketing de Clientes [vi].
A tendência para gerir em função do valor deve basear-se, como temos visto anteriormente, numa correcta Estratégia de Segmentação. Para segmentar com inteligência, não só há que contar com as melhores ferramentas analíticas, mas prestar atenção ao que nos conta o mercado; um mercado em constante mudança e movimento, onde os perfís dos clientes mudam a uma velocidade vertiginosa, ao mesmo tempo que surgem novos. Uma das tendências mais chamativas dos últimos tempos é o nascimento do que a operadora Telefónica baptizou como “multicliente” [vii], ou seja, aquele utilizador que procura soluções “chave na mão”, e não se lhe pode exigir que entenda que um fornecedor é composto de distintas empresas, distintas divisões e diferentes serviços de atenção. O autêntico desafio está em conseguir que, apesar das estruturas corporativas serem complexas, ao cliente lhe pareçam simples e dialogue com um único interlocutor. Este paradigma deve ser resolvido com inteligência e sem deixar de perder de vista a rentabilidade: as grandes empresas dirigidas ao novo “multicliente” final devem ser como um bom restaurante: nas cozinhas pode mover-se o maior estrépito e trabalho, mas o prato deve ser servido a tempo, correctamente e sem problemas. O desafio é difícil, mas vale a pena: as pessoas estão sempre dispostas a pagar mais se forem impecavelmente atendidas.
Estes novos perfis de cliente exigem às empresas um duplo desafio: centralizar o máximo das suas ofertas, mas simultaneamente, diversificar o máximo dos seus canais, para optimizar a gestão comercial. A Mango decidiu entrar na UE, mas de momento só através do canal “on-line”. A Hertz foi mais além dos tradicionais pontos de venda em aeroportos e estações, para se instalar em centros comerciais. A Vueling Airlines cresceu 400% em passageiros e 500% em receitas num ano (ver pág. 12) realizando mais de 90% das suas vendas através da Internet [viii]. Os médicos respondem mais às acções comerciais via e-mail e SMS do que às visitas presenciais... Não dá que pensar?
A rentabilidade deve primar em todas as acções comerciais e de Marketing para conseguir “estrategizar”, como comentávamos anteriormente. Se a rentabilidade deve presidir às Estratégias de Segmentação, Posicionamento, “Targeting” ou Atribuição de Canais, as acções de Fidelização não o devem fazer menos. A eficácia e rentabilidade de muitos planos de lealdade está a ser questionada, mas há exemplos que demonstram que podem ser eficazes em termos económicos e “marketianos”. O exemplo da cadeia de moda infantil Neck&Neck é tremendamente ilustrativo: Depois de detectar que 55% dos clientes que compravam em lojas não repetiam a compra, a empresa propôs-se desenvolver uma ambiciosa estratégia de fidelização em torno de um Clube de Clientes, que oferecesse aos compradores ofertas, vendas, descontos e outras promoções à medida. Assim nasceu, em Setembro de 2002, o “Clube Neck”, com o objectivo de aumentar a frequência de compra e o ticket médio de cada cliente, assegurar o nível de receitas dos clientes mais fiéis e gerar uma maior lealdade à marca. A Neck&Neck conseguiu, até hoje, contar com uma base de quase 98.500 clientes, ou seja, 51% mais do que no ano passado, assim como que 48% das vendas tenham sido realizadas a clientes do clube e que a facturação total da empresa tenha aumentado em 21% anuais [ix].
Não se podem aplicar todos os passos anteriormente citados com precipitação e ansiedade de resultados imediatos. A relegação para segundo plano do Marketing, durante demasiado tempo, e a exaltação das Finanças traduziu-se numa tremenda pressão “a curto prazo” sobre as empresas, mais dependentes do valor da acção do que do valor da carteira de clientes. Muitas empresas apostaram, como assegura Don Peppers, comparando os clientes com o campo, em “estratégias de cultivo intensivo” em detrimento de “estratégias de cultivo conservadoras”. As primeiras extraem rapidamente o sumo do cliente, mas “ queimam-no”. As segundas, cuidam-no no tempo e obtêm-se resultados não só “numa colheita”, mas em todas. Queremos clientes “queimados” a curto prazo ou “adubados” a longo prazo? A resposta é tão lógica como evidente.
[i] Yankelovich Partners
[ii] The Times / A. Marsden. Shareholder Value Creation
[iii] Philip Kotler
[iv] Mª Angeles Garralda. Aviva Vida y Pensiones. MSF 2006
[v] Don Peppers. Shocking Results. New Strategies to Increase Customer Profitability. MSF 2006
[vi] Nirmalya Kumar. From Market Driven to Driving marketing. MSF 2006
[vii] Javier Juanco. Telefónica. MSF 2006
[viii] Carlos Muñoz. Vueling Airlines. MSF 2006
[ix] Javier de Rivera. Neck & Neck. MSF 2006
Return to The Marketing Intelligence Review, Nº4 Junho 2005 Sales Force Effectiveness